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Shein: a queridinha fast-fashion chinesa bonita é sustentável?

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Você provavelmente conhece alguém que compra ou já comprou na Shein. A marca dominou as redes sociais e o mercado da moda. O diálogo “Gostou? Comprei na Shein” é mais que comum por aí, promovendo diversas publicidades a ela.

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Um relatório do Wall Street Journal, de abril deste ano, mostrou que a varejista foi avaliada em US$ 100 bilhões, tornando-se maior que H&M e a Zara juntas. Ela vem conquistando espaço no mercado e sendo querida pelo público.

Na moda

A Shein vai além da produção do fast-fashion. A fabricação das peças é tão veloz a ponto de ser considerada ultra fast-fashion. Tal classificação se torna um problema no mundo sustentável da moda, pois as roupas são vistas como descartáveis neste ponto.

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Entretanto, a marca chinesa, de acordo com uma estimativa, coloca à venda cerca de 10 mil novas peças por mês. Esse cenário se dá diante de muitas colaborações, como a feita com a cantora Anitta, por exemplo.

Além disso, a marca, fundada em 2008, é conhecida por vender peças “boas, bonitas e baratas”. Inclusive, seu slogan popular é este. Muitas influenciadoras no Instagram e TikTok são patrocinadas pela marca, com mais de dois mil novos produtos adicionados diariamente.

A varejista opera sob demanda, no qual as peças de vestuário são produzidas em pequenos lotes. Estas só são feitas em massa quando se tornam um sucesso no mercado. Recentemente, a moda vem lutando, em prol do planeta, em uma causa mais sustentável, que visa o consumo consciente por parte do público.

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Bastidores da Shein

A ironia, portanto, se dá quando seu sucesso vem de um problema grave. A produção da varejista em velocidade ultra, favorece o cliente e a própria empresa, com alto engajamento nas redes sociais. Assim, não beneficia quem está por trás da confecção.

Uma investigação da emissora britânica Channel 4, reportada também pela revista “The Cut” expôs o trabalho massivo de Shein. Um funcionário foi enviado, disfarçado, filmando duas fábricas em Guangzhou, na China. A fábrica fornece roupas para a gigante do fast-fashion.

Estes locais possuem portas fechadas à mídia, portanto, as informações necessitam ser divulgadas de tal forma. O canal descobriu que, em uma das fábricas, os trabalhadores recebem um salário-base de 4.000 yuans chineses (cerca de R$ 2,9 mil) por mês para fazer 500 peças de roupa por dia.

A investigação mostra que o pagamento do primeiro mês é retido. Em outra fábrica, levando em consideração o trabalho mensal, trabalhadores recebiam o equivalente a um centavo por dia. A “The Cut” afirmou que trabalhadores de ambas fábricas trabalhavam até 18 horas por dia, recebendo apenas um dia de folga por mês.

A emissora de televisão encontrou em uma das fábricas mulheres lavando os cabelos durante os intervalos do almoço. Caso houvesse qualquer erro na produção de um item de vestuário, os trabalhadores recebiam pena de dois terços de seu salário diário.

A Shein, em resposta ao Business Insider, falou sobre as acusações que envolviam trabalhos análogos a escravidão: “Qualquer não-conformidade com este código é tratada rapidamente e encerraremos as parcerias que não atendem aos nossos padrões.”

Outras produtoras, como Zara, Nike, H&M, Puma, C&A, GAP, entre outras, já se envolveram em escândalos semelhantes.

Moda “perversa”

A consultora de moda e especialista em sustentabilidade, Giovanna Nader opina sobre a varejista: “É muito desestimulante ver a Shein crescer tanto no mercado de moda como está crescendo. O que está acontecendo é uma maneira muito perversa de se consumir e gerar desejo.”

Ela demonstra preocupação com a falta de informação acerca da produção das roupas: “Não se sabe como é praticado, como é produzido. Os prédios da marca na China são todos fechados, não temos acesso a nada que acontece.”

Nader reforça que a varejista usa uma estratégia de marketing como um dos seus principais pontos de força: “Eles brincam com essa coisa de recebidos dos influenciadores digitais.”

A consultora fala sobre vídeos que mostram os “mimos recebidos” da Shein por diversos compradores: “A gente vê regularmente esse unboxing, de abrir o presente. Como isso está virando algo comum. Os adolescentes todos fazem vários vídeos falando: ‘tudo que comprei na Shein por 200 dólares’”

Ela reforça a visão pessoal que a marca representa: “Eu vejo isso de uma maneira muito perversa.” Giovanna menciona também a resposta da marca com comentários negativos.

Em uma situação, ela comentou negativamente, em suas redes, sobre a Shein, e recebeu e-mails da marca lhe dando vale compras. A tentativa era de que a consultora recebesse os produtos e fizesse divulgação dos mesmos.

Ela esclarece, em seu ponto de vista, o que atrai o consumo de diversos clientes: “A rapidez em traduzir tendências de moda com um preço acessível e para diferentes tamanhos de corpo.”

Entretanto, ela ressalta que: “A moda sustentável ainda é nichada, no valor e no corpo. Não acha para corpos maiores tão facilmente, a Shein acaba ganhando nisso”.

Engajamento e lucro na indústria têxtil

A varejista possui receita anual bilionária e seus números de acesso da plataforma digital impressionam. No SimilarWeb é possível ver uma análise de tráfego do site, nele, apresenta que mais de 10 milhões de usuários visitaram o site brasileiro da marca no mês de agosto.

Em geral, clientes brasileiros passam 10 minutos no site da Shein.br. Já na versão norte-americana há mais visitas. No site dos Estados Unidos, cerca de 172 milhões de usuários, gastam cerca de 7 minutos na plataforma.

No país, a Shein.com ocupa o terceiro lugar no ranking dos principais sites de moda e vestuário. Ela está atrás apenas de Macy’s e Gap, que ocupam, respectivamente, o primeiro e o segundo lugar.

O especialista em empreendimentos no setor têxtil, Jesué Tomé, destaca que a varejista se tornou o maior empreendimento de moda online do mundo: “Hoje, a Shein vende em mais de 150 países e é uma empresa avaliada em bilhões de dólares.”

Ele aborda que tal sucesso afeta concorrentes menores, pois os clientes se adaptam ao mercado online, portanto: “Lojas de moda que não têm marcas consolidadas ficam pelo caminho, por consequência do preço não ser competitivo comparado a players como a Shein”.

Jesué menciona que a marca não preencheu uma brecha no mercado aqui no Brasil, mas que se posicionou rapidamente nas mídias, assim, viralizando com seus preços baixos.

Ele menciona a competitividade contra a empresa chinesa: “Com toda minha experiência, eu diria que é impossível qualquer varejista proporcionar os produtos que a Shein proporciona pelos preços que ela vende.”

Tomé ainda menciona que não há como competir com a Shein visando ganho imediato diante de seus pilares: “A empresa trabalha fortemente os cinco pilares do MIAPE, que são Mercado, Identidade, Audiência, Produto e Estratégia”.

Uma fast-fashion pode ser sustentável?

Giovanna menciona que o principal obstáculo para essa meta é o preço, pois pequenas marcas de moda sustentável não são acessíveis devido ao número raso de produção.

“Mas algumas cadeias maiores de moda já colocam a sustentabilidade como um pilar maior. É importante dizer que ainda vivemos em um sistema capitalista, as empresas visam o lucro”, ela conclui.

A consultora de moda sustentável cita algumas medidas tomadas por marcas voltadas a esse olhar, como o compromisso na redução de carbono em 50% até 2030; etiquetas que abraçam populações invisibilizadas e o uso do algodão agroecológico.

Ela também fala sobre a importância desse ponto: “É sobre apoiar a população que planta esse algodão, sobretudo. Acho que existem alguns bons exemplos, mas o obstáculo ainda fica sendo o valor das peças”.

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